Quarta-feira, 28.11.07

 

 

 

  

 

Teresa vivia numa família onde reinava o amor de pais para filhos.

O pai era o melhor, mas nem sempre soube ser bom marido. A mãe, a melhor de todas, trabalhava dia e noite e tinha sempre uma palavra de carinho para dar às filhas e ao marido . Quando cansada procurava o repouso, o marido enfurecido pelo  álcool , fazia-se valer da sua força máscula. Porque assim também já crescera, tudo suportava em nome de qualquer coisa que teimava em chamar família.

As suas duas filhas assistiam a estas cenas, socorriam a mãe e tentavam apaziguar a ira do pai. Cresceram rodeadas de todo o conforto, mas privadas da paz que tanto almejavam .

Laura, a mais velha, optou por não constituir a sua própria família. Teresa, a caçoila, cheia de sonhos, casou com o seu primeiro e grande amor.

O namorado tinha tudo o que sempre desejara num homem e este era tão diferente do seu pai.

Trocaram votos de felicidade, de cumplicidade, de protecção, juras de amor eterno naquele dia, que era tão-só, o dia mais feliz da sua vida.

Partiram em lua de mel e Teresa estava mais feliz do que nunca. Tinha conseguido dar início à sua própria família, que estava certa, seria tão diferente daquela que a viu crescer.

Ainda em Lua de Mel, Teresa sentiu a sua vida desmoronar. Aquele homem meigo que um dia conhecera, deu mostras da de que afinal era tão parecido com o seu pai.

As primeiras agressões surgiram. Teresa a quilómetros de distância, separada por um imenso Oceano, chorou lágrimas de sangue, curvada sobre o seu próprio ventre, recusando-se a acreditar que o que lhe tinha sido tão familiar lhe estava a acontecer.

Mário chorou agarrado a ela, implorando-lhe perdão e querendo fazer amor com ela. Teresa cedeu, aquilo não podia ser verdade, era apenas um momento que não se voltaria a repetir.

De regresso e com o olhar triste, escondeu de todos o que lhe havia sucedido. Estava certa que nunca mais voltaria a passar por tudo aquilo. Mário mostrava-se mais terno, mais atencioso do que nunca.

A vida tinha voltado à normalidade, embora Mário revelasse um carácter ciumento, possessivo, mas no seu coração, ele amava-a, dizia repetidamente para si própria.

Um dia, Mário chegou a casa cansado... o dia não lhe tinha corrido bem no seu novo emprego e Teresa tentava, em vão, animá-lo. Vestiu a camisa de seda que havia usado na noite de núpcias... e mais uma vez, porque pensava que a sua mulher estava a ficar fora de controle, Mário não se conteve. Espancou-a com uma violência tal que Teresa desfaleceu.

Quando «acordou» Teresa pensava que tudo não tinha passado de um pesadelo mas, ao ver-se ao espelho, percebeu que as marcas do amor haviam ficado registadas no rosto.

Mais uma vez não quis acreditar, mais uma vez Mário se mostrou arrependido, prometendo-lhe que nunca mais voltaria a cometer tal barbaridade, fazendo-a acreditar que ela era a mulher que sempre desejara e que para sempre iria amar.

Seguiram-se dias de «namoro e de enamoramento», Mário voltara a ser o homem maravilhoso, ternurento e carinhoso que sempre fora.

Teresa andava feliz, tanto que quis ter um fruto desse amor. Mário consentiu, afinal ela era a mãe que sempre desejara para os seus filhos.

O Miguel nasceu e a paz e a felicidade tinham voltado. Teresa vivia agora a felicidade plena.

O pequeno Miguel não dormia, não se calava durante o dia e a noite.... Mário passara a dormir no sofá, com a desculpa que teria de trabalhar no dia seguinte, Teresa não.

Os olhos de Teresa começaram a ficar carregados de negro, fruto de noites e dias sem descanso, fruto de um esforço sobre-humano para estar alegre e sorridente quando Mário regressasse do seu dia de trabalho.

Numa noite, Miguel adormecera... finalmente podiam jantar a sós, sem interrupções, sem os «berros da criança», mas o telefone tocara nesse instante. Teresa hesitou, não queria estragar aquele momento que poderia tornar-se mágico. Mário atendeu, era a mãe da Teresa, queria saber se o neto estava melhor.

Quando Teresa regressara para a mesa, Mário mais uma vez se descontrolou...  Estava louco, possuído... e Teresa, encolhida, a seus pés, suplicava que parasse, pedindo-lhe perdão como se tivesse sido culpada de alguma coisa. Mário não a ouvia e só conseguiu parar quando deu conta do sangue que estava junto aquele corpo agora inerte.

Como justificaria isto? O que diria? Teresa não acordava... chamou a ambulância... «Ela tem a mania das limpezas e pendurou-se, já a tinha avisado», foi a desculpa que arranjou para encobrir o seu acto de cobardia.

Apressou-se a telefonar à mãe de Teresa a quem contou a mesma história «sabe como é a sua filha, sempre com a mania que a casa está suja... tem de vir buscar a criança». A mãe de Teresa, no seu coração, sabia mas nem uma palavra disse. Afinal, Mário era o marido. Mas o seu coração ficou negro como a noite mais escura.

Anos e anos se passaram, histórias e histórias foram inventadas... para que não descobrissem o marido que escolhera e que sempre se mostrara arrependido. Anos e anos de arrependimentos, de namoro e de enamoramento.

Numa das muitas entradas no hospital, Teresa não aguentou mais. Quis falar com uma assistente social, precisava de ajuda, estava a caminhar para a loucura.

Foram anos de sofrimento, mas Teresa conseguiu libertar-se daquele que um dia lhe tinha jurado protecção, amor, ajuda na doença.

Hoje, Miguel tem 20 anos e Teresa continua só, a viver para o único homem da sua vida - o filho. Deixou de acreditar.

 


 

Esta é apenas uma história, baseada em tantas que se contam.

Não vamos tolerar mais!

Chega de violência!

É bom que a blogosfera também sirva para isto:

 

 http://trazoutroamigotambem.blogs.sapo.pt/45138.html

 

 (Link publicado com autorização da autora)

 

 

 

 

 



publicado por Estupefacta às 09:01 | link do post | comentar | ver comentários (17)

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