Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Artigo de Nuno Markl - para a geração dos 30/40


A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta. O grande choque, entre outros nessa
conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer. "Quem? ", perguntou ele.
Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música: "Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além..." era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.

Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora. O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas, lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual... E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração:

O Verão Azul. Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.

Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos: Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos.

Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.

Confesso, senti-me velho...

Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador. Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.

Óbvio, nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros. Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com nomes tipo "Moleculum infanticus", que não existiam antigamente.

No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de "terno" nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.

Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo. Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia. E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração "rasca"...

Nós éramos mais a geração "à rasca", isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos.

Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto. Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.

Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta.

Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos.

Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas.

É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.

 

 

 



sinto-me Cota
música Tu que andas sempre descalço
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publicado por Estupefacta às 17:55 | link do post | comentar

8 comentários:
De Ginebra a 14 de Setembro de 2007 às 19:24
Gostei imenso do post. De facto, de geração para geração há coisas que se perdem irremdiavelmente. Algumas das coisas que vivemos na adolescência não primam pelo interesse mas porque foram vividas por nós têm uma conotação especial. Talvez hoje o Dr. House seja mil vezes melhor do que o Verão Azul, mas isso não interessa nada porque foi no Verão Azul que crescemos.


De Lua de Sol a 15 de Setembro de 2007 às 11:27
E tem mesmo piada:)
Dá para nos identificarmos.
Acho que tivemos muita sorte, mais do que esta geração que é demasiado virtual. Não por sua culpa, claro... Mas que não saboreou a realidade com tanta naturalidade e intensidade. Os perigos também são muitos, infelizmente...
Boa escolha a da publicação.
Beijocas


De FELINO a 15 de Setembro de 2007 às 21:46
Olá
Nem queria acreditar neste exelente texto mesmo muito bom.
Fez-me recordar momentos da minha vida fabulosos, realmente os putos de hoje não sabem brincar nem viver a vida. Muitos não sabem o que é andar com os joelhos todos esfarrapados, não sabem o que é um jogo de caricas nem o que é um abafador ou um pião.
Gostei, muito bem escolhido.
Beijinhos do FELINO ih,ih,ih,ih,i,hi


De Lyta a 16 de Setembro de 2007 às 14:25
Boa tarde Estupefacta!
Achei piada a este post!Não sou assim tão "velha"...tenho apenas 16 anos,mas lembro-me de algumas dessas coisas.Também porque tenho um irmão mais velho e os meus pais sempre gostaram de nos por a ver séries antigas.E caí muitas vezes das arvores!Agora que penso nisso,nem sequer me importava de esfolar o joelho=)
Pode parecer um pouco ridículo,mas noto essa diferença de gerações já com os meus colegas de 10/14 anos!E são pouco mais novos!!Eles não passar muitas das coisas que os de 15 para cima passaram!
Acho que temos de saber conviver todos com as vivencias que temos.

Um abraço



De daplanicie a 17 de Setembro de 2007 às 14:55
Um texto cheio de humor e nem por isso menos real. Realmente é impressionante a evolução que houve na sociedade nos últimos 20 anos ( ou será que não foi evolução e sim o contrário??!!).
Beijinho grande


De drink a 17 de Setembro de 2007 às 17:29
ahahahah eu conheço o Tom Sawyer e o dartacão e esses outros mais..! E também já roubei chocolates do pingo doce Lol

Tenho um computador, passo muito tempo em frente ao pc, mas tenho uma vida fora dele.

Agora pergunto-me, serei uma jovem com tendencias cotas? x:

Tenho saudades da heide e do marcooooo! ): das aventuras do bocas, das navegantes da lua, dos desenhos em condições.
Do jogo super mário, do puzzle boble do tetris, pacman e outros mais..

hum.. lembro-me de me divertir com o meu avo a ir buscar erva para as ovelhas, de jogar as cartas com ele, de passar as tardes a chatear a cabeça da minha avo, na altura em computadores não prendiam as ciranças. Isso sim era vida.. :D


De Pedro de Sousa a 19 de Setembro de 2007 às 11:43
Ola

O meu problema é que eu já não vi o D'Aratacão por ja ser demasiado velho.... eheheh

Optimo artigo

Beijinhos


De maria a 10 de Abril de 2008 às 13:40
O texto não é do Markl:
http://havidaemmarkl.blogs.sapo.pt/240835.html

Não entendo por que é que, com o enorme historial de textos mal atribuídos que há na net, quando se recebe um texto por e-mail, antes de publicar e difundir, não se gasta 5 minutos a confirmar a autoria.

Desculpa o desabafo, Estupefacta, não és tu, entendes?, é a onda geral de difusão de textos com autoria falsa.

Inté :)
Maria


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