Domingo, 20 de Maio de 2007

«Há quem pense que os meninos gostam de histórias disparatadas. Não é bem assim. Histórias maravilhosas nunca são disparatadas (...).

(...) A memória de Giz fazia o espanto das pessoas. -Este rapaz - dizia o professor - mede a memória aos canecos, mas isso não lhe aproveita para nada. (...)

(...)-Quem é o senhor? - disse Giz , com mais respeito.

- Sou uma pessoa que lida com o passado. Escrevo as coisas que aconteceram. Mas para isso preciso de memória. Eu sei tudo, eu vi tudo; mas esqueci-me. Um dia acordei de manhã e não me lembrava de nada. (...)

- Vende-me a memória aos canecos.(...)

(...) Que me dá por isso?

- Tudo. (...)

(...) Giz pensou um bocado (...)

(...) - Pode levar a minha memória, se lhe faz jeito. (...)

(...) Mas as coisas começaram a mudar daí em diante. (...)

(...) Quando acordou, Giz comeu e percebeu que só podia viver de esmolas que ele não pedisse. tudo o que desejasse transformava-se em quantidades imensas que o perseguiam e o podiam supultar. (...) As vezes estava quase morto de fome e todos passavam à beira de Giz sem entender nada do sofrimento dele.(...)

(...) Aprendeu a esperar o seu bocado de pão e o seu pedaço de cobertor (...).

(...) Giz tinha andado muito e tinha voltado à aldeia onde vivera com os pais e os irmãos. Não se lembrava de nada, mas o cheiro da casa era-lhe familiar. (...) A voz da mãe, zangada como sempre, caiu-lhe no coração, e Giz, de repente, lembrou-se de tudo. Tinha vergonha de ter vendido a memória e de , por causa disso, ter passado tanta miséria. (...) Mas acabou por se rir e desejou, nesse último minuto em que tinha o poder de conseguir todas as coisas, desejou que o velho pudesse aproveitar bem tudo aquilo. (...)

(...) Ou fosse porque tivesse sofrido muito, ou porque o mundo lhe parecia novo e animador, Giz sorriu e olhou com prazer para as ferrugentas tesouras de vindimar que a mãe nunca tirava do bolso. Não sei se se tornou melhor rapaz. Não era disso  que eu quis falar. Ao certo ninguém pode dizer do que quer falar, porque mais ou menos todos vendemos a memória ao historiador, ou lá quem é o homenzinho de barbas enroladas por detrás das orelhas.»

Obrigada Agustina Bessa-Luís!

 

 


sinto-me
música Há momentos em que na vida pensamos em olhar para trás

publicado por Estupefacta às 19:22 | link do post | comentar

2 comentários:
De sobrinho...:P a 20 de Maio de 2007 às 22:34
gostei do que vi pois neste momente so msm a tia para me dar liçoes da vida... era so pa dizer que lhe agradeço muito pelo que me disse e fez... e que gosto muito de si


De Estupefacta a 22 de Maio de 2007 às 23:01
Este meu sobrinho é uma pérola preciosa que encontrei no meu mar.
Nunca desistas de viver e sê sempre assim, porque serás feliz.
Um beijinho


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