Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

 

 

Estou furiosa. O que mais me apetecia neste momento era mudar de profissão, deixar de ser professora.

Tinha por hábito dizer na minha escola «aqui eu sou feliz», mas hoje (ou melhor, desde que começou o processo de avaliação dos docentes) só me apetece dizer que «ali não sou feliz».

Conseguiram tirar-me a vontade de dar aulas, de ensinar, de aprender, de estar com os miúdos, de ser professora, de ser educadora.

Agora vejo-me «embrulhada» em burocracias, em papéis, em objectivos que nada contribuem para uma «aprendizagem de sucesso». Agora vejo-me numa sala de professores onde a dúvida é uma constante e a desconfiança passou a fazer parte do clima daquela sala.

Conseguiram, é verdade. Conseguiram descredibilizar os professores por completo. Pergunto: os médicos vão ser avaliados em função dos pacientes que morrem???? O número de horas, o trabalho que fizeram para lhes salvar a vida não conta? O resultado é que interessa, o processo não. É isso???!!!! Que grande treta é esta avaliação.

Só mesmo quem nunca esteve em contexto de sala de aula é que pode dizer barbaridades como as que ouvimos da boca «dos senhores comentadores da televisão», já para não falar da boca dos nossos ministros / governantes.

Sabem o que é ser professor? Não? Então calem-se, por favor. É o que de melhor têm a fazer.

Sabem educar os filhos? Têm filhos? Não? Então calem-se, por favor.

 

Não se deve falar do que não se sabe, não se deve de opinar só porque estamos convictos das nossas convicções (passo a redundância), só porque aprendemos a arte de bem falar, como se estivéssemos na Grécia Antiga.

Sempre fui avaliada e não é disso que tenho medo. O que me choca é a forma como me querem avaliar, sem que para isso escutem o meu ponto de vista, as minhas razões, os meus argumentos.

Estamos mesmo numa democracia ateniense, em que só os 'cidadãos' podiam participar na vida pública e política, em que só eles tinham direitos e, quando não cumpriam «as regras impostas», eram votados ao ostracismo.

Desencantada? Estou e muito. Deixei de ser professora, função para a qual me profissionalizei. Agora sou nem sei bem o quê, já não sei o meu papel dentro da escola.

 

 

 



publicado por Estupefacta às 22:30 | link do post | comentar
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4 comentários:
De Visitante a 30 de Outubro de 2008 às 09:15
Senhora Professora (escrevo isto sem qualquer ironia, pois tu és uma Senhora... e Professora):

Escrevi aqui há dias n'A Roulotte das Farturas, a propósito de uma abordagem feita ao que agora se designa por "bullying":

"Bem sei que, agora e fruto do 'deixa-andar' educacional dos últimos anos, os valores são totalmente diferentes. Mas a essência é a mesma!

A diferença é que, antes, tínhamos um professor ou uma professora que, se vissem uma situação dessas, aplicavam um correctivo exemplar aos autores da gracinha, correctivo esse muitas vezes 'confirmado' em casa pelos próprios pais..."

Hoje, os professores são permanentemente desautorizados, e são-no principalmente por quem os deveria apoiar em primeiro lugar: os pais e o Estado.

Como pai e filho que sou, como aluno que fui (e ainda como pai de uma professora), compreendo-te perfeitamente.

Mas... pensa nos teus alunos...

Quer queiras quer não, és uma referência para eles, e hás-de ser uma das suas primeiras memórias escolares (pois é essa a melhor homenagem que eles te prestarão).

Pensa neles...

Beijinho, Estupefacta
Visitante



De Estupefacta a 8 de Novembro de 2008 às 13:53
Tudo isto que a ministra está a fazer é de uma incongruência total e absoluta. Tens razão, os meus alunos irão lembrar-se de mim e não da Ministra.
Os professores não são o bode expiatório da sociedade, como querem fazer parecer. Sempre fui avaliada, mas não desta forma.

Beijinho


De C.M. a 30 de Outubro de 2008 às 14:47
Concordo e assino por baixo. Grande treta , esta. Eu estou num privado e (para já) não temos a avaliação como a vossa, mas tenho os olhos abertos. Tens toda a razão. Era bom que , de uma vez por todas, quem está de fora, se calasse e parasse de dizer disparates de quem é pseudo-analista/intelectual/escritos/político/ cidadão do país das maravilhas....
Bj e força para esse processo doloroso!


De Estupefacta a 8 de Novembro de 2008 às 13:54
Pseudo-intelectuais que nem sequer têm os filhos em escolas públicas. Sabem lá do que falam.

Beijinhos Nave e Bom fim de semana


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